Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

armadilha

é mesmo quando vejo o céu
verso limpo e aberto
prova de sanidade,
o escuro ofusca e me empurra


cá estou eu na dobra do papel.

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

cabeça de vento

é quando o pouso em própria casa é arriscado.

Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

sobre a burrice

A mesa alí, imóvel.

Até hoje não entendi porque os móveis da sala
ou de qualquer aposento não são móveis,
estão aí, pra ocupar um espaço,
um corpo parado que vai ficando senil.

A mesa repete sua existência no tempo
e os anos passam...

Eu nunca entendi
(ou talvez não me lembre
minha memória é ruim à beça)
onde é que as histórias ficam?

Hoje, quando passei pela sala,
a mesa estava lá, com suas gavetas,
vez ou outra ouço dedos estalando sobre ela
soando lentos, firmes.

Os dedos sim, são tiranos, eles dizem "sua porta,"
mas sem volume.

Eu, quando vejo, finjo que não ouço e pronto.

Domingo, 29 de Maio de 2011

invasão

Quanto tempo !

Um abraço, um beijo,
uma ternurinha sem graça - faz tempo que não me vejo.
São meses fiando, uma concentração absurda,
só há fios pra mim há meses:

vermelho, rosa, verde e branco
vermelho, rosa, verde e branco
vermelho, rosa, verde e branco
sempre nessa ordem.

Eu poderia dizer industrial, nessa ordem industrial,
mas estaria te enganando.

O fazer pode ser mecânico,
execução de dedo num tempo exato:
puxa amarra, vai !

Faz-se um laço, dois, três, mil
laços de qualidade afetiva,
em série: puxa amarra puxa amarra,

que dia é hoje?
Somando ontem, hoje, mais amanhã,
dá uma totalidade de horas a fio,
puxando e amarrando
continuamente, exatamente,
minto:
tenho dúvidas, me perco,
ai, maldita lacuna !
vem cheia de saudade,
faz tempo que não me vejo.



Sábado, 14 de Maio de 2011

há entre meus pelos e a superfície da minha pele, uma camada de poeira brilhante. ou seria amor mesmo?

Domingo, 16 de Janeiro de 2011

o dia

As galinhas com o susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral-,
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com o sexo:
mas gostando muito.

*Adélia Prado

Segunda-feira, 5 de Julho de 2010

...

Não posso mais falar de mim, não sou mais eu.

Agora entendo os marinheiros que se dedicam ao mar,
não é por escolha,
é porque são feitos do mesmo sal,
da mesma espuma,
dormem e acordam com o mesmo vento,
e não se terminam...

Assim são as mães que se dedicam aos filhos,
não é por escolha,
é porque são feitos do mesmo mar,
do mesmo vento,
sussurram o mesmo fado,
e não se terminam...