segunda-feira, 2 de março de 2009

epifania

O grito.
Flácido, deitado ainda

sobre a linha do diafragma.
Infame, em fato, em caroço !
A potência em esplendor.

Oro pelo grito nosso;
que seja devasto sem dor,
que ecoe livre, os mil mundos.

Temo o grito cheio,
embuxado quase vingando,

e se aqui dentro ficar com saudade?
Ficar vazio?

Choro o grito mudo,
amarelo morto,

mais uma folha amassada:
cesta, lixo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

maquiagem de carnaval

A ordem dos cachos
é docemente cuidada;
alguns grampos escondidos,
alguns fios caidos.
Em destaque o adorno:
uma flor e um penacho.

O enfeite dos cachos
é tal emaranhado
que finge solto,
beleza fácil, beijo vendido.
Mas para o olhar atento,
verá só: a dor no
olho teso e o laço perdido.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

penetra surdamente no reino da palavra

yo- hola, que tal?

tu- ça vas bien

yo- te digo que alumbré mi desierto, es un papel blanco

tu- moi, je suis blanc oussi...

yo- me encanta hablar contigo, cariño, l'humour noir française !

me- please, don't forget our date, i miss you

silence


você - desculpe, te falto

eu - amo você, mas às vezes não te entendo, ou é vc que não me entende?

eu - aquele nosso encontro no museu da língua portuguesa mexeu comigo, chorei copiosamente, enquanto eu chorava pensava "choro copiosamente", foi louco.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

da série "oníricos"

Dessa vez a lembrança veio agressiva, veio assim, feito um povo na luta por terra. Migrava para se saber física, no espaço. Tão agressiva foi a lembrança que o agora se fingiu de morto, uma atitude de sobrevivência

...

A cozinha é o maior cômodo, é toda aberta com a pia de frente para o jardim... Na única parede tem um relógio cuco. Espero meio dia sair o pássaro de plástico, vem da janela avisar o pulso e se fecha na casa relógio. Sei que meio dia sou pássaro também.

(o passado inebria, só tem um cheiro amarelado. Não me importo com o cheiro amarelado, me importo com o sossego amortecido de quem espera)

Após a bem sucedida posse da lembrança, ela marca, outra letra e vai embora.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

da série "oníricos"

Estamos assim, lado a lado, eu e a barata. Um sorriso emoldurado desenha a cena. Há algo de cínico, blasé. Fingimos sempre que sentimos nada, representamos cordialidades, ficam dúvidas e tormentos, demais carga. Dou-lhe um beijo de despedida, ela vai. Fico só.

...

(me senti estranhamente triste, queria que ela fosse e queria que ela ficasse)

Tudo em volta é branco leite e eu sou o ponto vermelho inflamado, são infecções bacterianas e fúngicas, nunca virulentas.
...

( lembro de que a amei especialmente quando me cantou uma canção, havia sido feita pra mim? sempre acreditei que sim).


Choro um pouco, barata não namora gente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

da série "oníricos"

Queria um poema de êxtase, vejo-o, mas só tenho esse vestido preto.
O vento me toca com o tecido, sinto as pernas, mas não sinto êxtase.
Minhas asas estão armadas.

...


acho que também vi no flanco do motor o mesmo anjo encouraçado.

O vazio se desloca, ausência de luz torna-se hiato de som.


[cena muda : visto nada]

domingo, 11 de janeiro de 2009

disco velho

LADO A























Ah ! o macho....
Uma beleza !
Exposto e grosseiramente
reto, quieto,
o macho floreia sim.
[acho] não o vejo.
Olhai por mim.

LADO B

Por pouco
me encandeio,me arrepio.
Um carinho, um elogio.
Viro aranha, abelha
rainha.
Devoro da viga ao talo
e não sobra nada.
Me calo
como se consentisse

(o abandono da casa)

do emoldurado vão,
quero o finco dos pés
e quero asa!
Eis a fêmea-criação.


















eis a fêmea-criação.