domingo, 29 de maio de 2011

invasão

Quanto tempo !

Um abraço, um beijo,
uma ternurinha sem graça - faz tempo que não me vejo.
São meses fiando, uma concentração absurda,
só há fios pra mim há meses:

vermelho, rosa, verde e branco
vermelho, rosa, verde e branco
vermelho, rosa, verde e branco
sempre nessa ordem.

Eu poderia dizer industrial, nessa ordem industrial,
mas estaria te enganando.

O fazer pode ser mecânico,
execução de dedo num tempo exato:
puxa amarra, vai !

Faz-se um laço, dois, três, mil
laços de qualidade afetiva,
em série: puxa amarra puxa amarra,

que dia é hoje?
Somando ontem, hoje, mais amanhã,
dá uma totalidade de horas a fio,
puxando e amarrando
continuamente, exatamente,
minto:
tenho dúvidas, me perco,
ai, maldita lacuna !
vem cheia de saudade,
faz tempo que não me vejo.



sábado, 14 de maio de 2011

há entre meus pelos e a superfície da minha pele, uma camada de poeira brilhante. ou seria amor mesmo?

domingo, 16 de janeiro de 2011

o dia

As galinhas com o susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral-,
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com o sexo:
mas gostando muito.

*Adélia Prado

segunda-feira, 5 de julho de 2010

...

Não posso mais falar de mim, não sou mais eu.

Agora entendo os marinheiros que se dedicam ao mar,
não é por escolha,
é porque são feitos do mesmo sal,
da mesma espuma,
dormem e acordam com o mesmo vento,
e não se terminam...

Assim são as mães que se dedicam aos filhos,
não é por escolha,
é porque são feitos do mesmo mar,
do mesmo vento,
sussurram o mesmo fado,
e não se terminam...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

contemporânea

Para que um dia deixe pra lá
esse andar de joelhos,
promessa repetida,
o escuro na lingua,
o pranto passado,
violência afiada, não,

não irei de barroco mais
travar nenhum duelo de sangue,

não haverá diabo, nem santo,
pecado mastigado a sal não,
eu garanto, vai ter alforria,
vai reluzir do preto,
meus dentes brancos
um perdão inacabado.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

sobre o amor

Aquele mais banal
e por isso mais complexo:
pele, músculo, osso,
dentro e fora.
Se algum dia cri amar,
me enganei;
tava espantada.

terça-feira, 27 de abril de 2010

este capítulo não é sério

"Se lhes disser desde já, que não tenho papas na língua, não me tomem por homem despachado, que vem dizer as coisas amargas dos outros. Não senhor; não tenho papas na língua, e é para vir a tê-las que escrevo. Se as tivesse, engolia-as e estava acabado. Mas aqui está o que é; eu sou um pobre relojoeiro, que, cansado de ver que os relógios deste mundo não marcam a mesma hora, descri do ofício. A única explicação dos relógios era serem igualzinhos, sem discrepância; desde que discrepam, fica-se sem saber de nada, porque tão certo pode ser o meu relógio, como de meu barbeiro. (...)
Foi por essas e outras que descri do ofício; e, na alternativa de ir à fava ou ser escritor, preferi o segundo alvitre; é mais fácil e vexa menos. "


Machado de Assis, crônicas de Bons dias ! 5 de abril de 1888.